Ele queria rodear-se de heróis e homens respeitáveis. A este frio monstro agrada acalentar-se ao sol da pura consciência.
A vós quer ele dar tudo, se adorardes. Assim compra o brilho da vossa virtude e o altivo olhar dos vossos olhos.
Convosco quer atrair os supérfluos! Sim; inventou com isso uma artimanha infernal, um corcel de morte, ajaezado com adorno brilhante das honras divinas.
Inventou para o grande número uma morte que se preza de ser vida, uma servidão à medida do desejo de todos os pregadores da morte.
O Estado é onde todos bebem veneno, os bons e maus; onde todos se perdem a si mesmos, os bons e os maus; onde o lento suicídio de todos se chama “a vida”.
Vede, pois, esses supérfluos! Roubam as obras dos inventores e os tesouros dos sábios; chamam a civilização ao seu latrocínio, e tudo para eles são doenças e contratempo.
Vede, pois, esses supérfluos! Estão sempre doentes; expelem a bílis, e a isso chamam periódicos. Devoram-se e nem sequer se podem dirigir.
Vede, pois, eles adquirem riquezas, e fazem-se mais pobres. Querem o poder, esses incompetentes, e primeiro de tudo o palanquim do poder: muito dinheiro!
Vede trepar esse ágeis macacos! Pulam uns osbre os outros e arrastam-se para o lodo e para o abismo.
Todos querem abeirar-se do tronos; é a sua loucura – como se a felicidade estivesse no trono – Frequentemente também o trono está no lodo.
Para mim todos eles são doidos e macacos trepadores e buliçosos. O seu ídolo, esse frio monstro, cheira mal; todos eles, esses idólatras, cheiram mal.
Meus irmãos, quereis por agora afogar-vos na exalação de suas bocas e de seus apetites? Antes disso arrancai as janelas e saltar ao ar livre.
Evitai o mau cheiro! Afastai-vos da idolatria dos supérfluos.
Evitai o mau cheiro! Afastai-vos do fumo desses sacrifícios humanos!
Ainda agora o mundo é livre para as almas grandes. Para os que vivem solitários ou aos pares ainda há muitos lugares vagos onde se aspira a fragrância dos mares silenciosos.
Ainda têm franca uma vida livre as almas grandes. Na verdade, quem pouco possui tanto menos é possuído. Bendita seja a nobreza!
Além onde acaba o Estado começa o homem que não é supérfluo; começa o canto dos que são necessários, da melodia única e insubstituível.
Além, onde acaba o Estado… olhai, meus irmãos! Não vedes o arco-íris e a ponte do Super-homem?”
Do Novo Ídolo – Zaratustra In Nietzsche, Friedrich: Assim falou Zaratustra.
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